Lincoln de Spielberg, Karl Marx e a Segunda Revolução Americana

Kevin B. Anderson

This article was translated into Portuguese by Sylvia Nerina and published in Vermelho (Brazil). Anderson’s original article, Spielberg’s “Lincoln,” Karl Marx, and the Second American Revolution, appeared in English in the International Marxist-Humanist on December 19, 2012.

imho-anderson-lincoln-port25 de Janeiro de 2013 – 17h30

Lincoln de Spielberg, Karl Marx e a Segunda Revolução Americana

O “Lincoln” de Steven Spielberg transcorre em único mas crucial mês da Guerra Civil dos EUA, um conflito equivalente a uma segunda revolução americana. Em janeiro de 1865, quando faltavam poucos meses para a vitória da União sobre a Confederação, o presidente Abraham Lincoln decidiu fazer aprovar a Decima Terceira Emenda à Constituição dos EUA, para a abolição da escravatura sem condições e sem indenização aos proprietários de escravos.

Por Kevin Anderson (*)

 

É um Lincoln muito diferente do candidato de 1860, que se negou a fazer campanha como abolicionista, ou do presidente que adiou a Proclamação da Emancipação quase até o terceiro ano da Guerra Civil, em 1863. Se trata de um Lincoln que cresceu com os tempos, cujo exército agora inclui 200.000 soldados negros, e cujos discursos começam a insinuar direitos de cidadania e voto para os antigos escravos.

América revolucionária

Com um roteiro escrito pelo destacado roteirista de esquerda Tony Kushner (Angels in America, Homebody / Kabul), o filme de Spielberg está centrado não apenas no próprio Lincoln, mas também na figura sem dúvida revolucionária, do abolicionista radical Thaddeus Stevens, com quem Lincoln se aliou naqueles fatídicos dias de janeiro de 1865. Algumas das cenas mais dramáticas retratam os debates cruzados de Stevens com o congressista de Nova York e racista doentio Fernando Wood, líder da ala anti-abolicionista do Congresso.

Em outra cena, Stevens apresenta um cético Lincoln e o programa republicano radical de uma prolongada ocupação militar do sul, durante a qual os antigos escravos alcançariam plenos direitos políticos, incluindo o de serem eleitos aos mais altos cargos públicos, e as fazendas dos antigos proprietários de escravos seriam confiscadas e divididas entre os antigos escravos (os famosos “40 acres e uma mula”). Tudo nisso narrado cinematograficamente graças à excelente interpretação de Daniel Day Lewis (Lincoln) y, mais ainda, de Tommie Lee Jones (Stevens), com uma contribuição também importante de Sally Field (Mary Todd Lincoln).

Ao mesmo tempo, está presente o lado sórdido da democracia dos EUA, em meio destas mudanças revolucionárias, mediante a corrupta política de clientelismo usada para obter os últimos votos para aprovar a emenda e envia-la aos estados para sua ratificação final.

Em seu conjunto, “Lincoln”, oferece uma perspectiva antiescravista e antirracista da Guerra Civil dos EUA mais consequente que a habitual nos filmes de Hollywood. Evita o típico retrato de Hollywood do Sul como moralmente equivalente, se não superior, ao Norte. Por outro lado, o filme se centra na escravidão e no racismo como o tema central da Guerra Civil, ao mostrar favoravelmente um líder revolucionário como Stevens, o que não é usual. Mais ainda, o fraudulento argumento do Sul sobre os “direitos dos estados” é desmascarado, mostrando seu verdadeiro conteúdo: o “direito” dos brancos a escravizar milhões de seus semelhantes.

Dimensões econômicas e de classe da abolição

Alguns setores da esquerda criticaram o filme por não por de relevo a luta pela auto-emancipação dos afroamericanos, como por exemplo no filme “Glória” (1989), que narra a história dos soldados afro-americanos do 54º regimento de Massachusetts.

Embora essas críticas sejam válidas e importantes, gostaria de centrar-me em outros dois temas que o filme não aborda: a importância econômica da escravidão e sua abolição, e a troca de correspondência entre Karl Marx e Abraham Lincoln, que se deu durante o mesmo mês de janeiro de 1865, no qual se desenvolve o filme. Ambos os temas poderiam facilmente ter sido incorporados ao roteiro sem alterar o ângulo a partir do qual o filme narra estes acontecimentos históricos transcendentais, e o do confronto entre elites políticas em lugar das massas mobilizadas. Certamente as primeiras influem nas segundas, e vice-versa, mas tento fazer uma crítica imanente, que aborde o filme em seus próprios termos e examine algumas das contradições que surgem.

A Proclamação de Emancipação de 1863 e a décima terceira emenda de 1865, que tornou permanente a guerra de 1863, eram diferentes das leis de emancipação promulgadas em outros estados. Por exemplo, a política de emancipação dos EUA proibia qualquer compensação econômica aos antigos proprietários de escravos. Diferenciava-se assim inclusive da pioneira Lei de abolição da escravatura britânica de 1833, que previu grandes somas de indenização. Neste sentido, foi mais parecida com a abolição jacobina de 1794 na França, anulada por Napoleão uma década depois, mas que ajudou a desencadear a revolução haitiana.

Por outro lado, a escravatura era mais importante para a economia dos EUA do que para a Grã Bretanha ou a França. Os quase quatro milhões de escravos que existiam nos EUA em 1860 constituíam ao redor de 13% da população e sofriam uma forma totalmente desumanizada de capitalismo que permitia comprar e vender seres humanos como escravos. A um preço médio 500 dólares cada, a “propriedade” humana dos escravistas nos EUA tinha um valor aproximado de dois bilhões de dólares, uma soma astronômica na década de 1860. Portanto, a abolição da escravatura sem indenização nos EUA constituiu a maior expropriação de propriedade privada capitalista até a revolução russa de 1917. Com uma penada se pôs fim a toda uma classe social, os donos dos latifúndios do Sul, que há séculos ergueram uma imensa acumulação de riqueza derivada da produção de açúcar, tabaco, algodão e outras matérias primas, além da compra e venda de outra mercadoria, os próprios escravos.

A abolição também incorporou milhões de trabalhadores formalmente livres à classe operária nos EUA, aumentando a possibilidade de uma unidade de classe que ultrapassasse as divisões raciais e étnicas, muito mais fácil depois que o trabalho escravo deixou de coexistir com o trabalho formalmente livre. Embora apenas uma pequena parte dessa unidade inter-racial tenha sido alcançada no pós-guerra, e apenas brevemente, sua necessidade segue ainda na agenda, na medida em que, hoje, a classe operária dos EUA está cada vez mais integrada por pessoas de cor, sobretudo afroamericanos e latinos.

Embora o filme passe por alto estas realidades econômicas e de classe, a favor da dimensão política, elas não escaparam a Karl Marx. Em uma carta de 29 de novembro de 1864, poucas semanas depois da fundação da Primeira Internacional (Associação Internacional de Trabalhadores), escreveu, “faz três anos e meio, no momento da eleição de Lincoln, a questão era não fazer mais concessões aos proprietários de escravos, mas agora a abolição da escravidão é o objetivo declarado e em parte já realizado”, e acrescentou que “nunca uma convulsão tão gigantesca teve lugar tão rapidamente. Terá um efeito benéfico no mundo inteiro” (Saul Padover, ed, Karl Marx sobre América e a Guerra Civil, Nova York: McGraw-Hill, 1972).

A carta aberta de Marx a Lincoln

Como foi mencionado atrás, no mês de janeiro de 1865, quando Lincoln virou para a esquerda, aliando-se com Stevens, foi também o mês em que Marx e Lincoln tiveram seu intercâmbio público de correspondência. Depois da publicação do “Discurso Inaugural” da Primeira Internacional (escrito por Marx) e suas “Regras gerais” de filiação, ambos em novembro de 1864, sua declaração pública seguinte foi uma carta aberta de parabéns a Lincoln por sua vitória aplastante na eleição de novembro de 1864. A carta a Lincoln foi redigida por Marx e também assinada por um grande grupo de ativistas operários e socialistas que incluía “Karl Marx, secretário de correspondência para Alemanha”.

Nesse momento, a embaixada dos EUA em Londres estava encabeçada por Charles Francis Adams, um abolicionista de Massachusetts, membro de uma das mais ilustres famílias políticas de Estados Unidos. Adams conhecia sem dúvida alguns dos envolvidos com a Internacional, porque havia enviado seu filho Henry para observar e informa-lo sobre as reuniões que os trabalhadores britânicos organizavam desde 1862 para contrapor-se aos chamados dos políticos britânicos e dos principais meios de comunicação a favor da intervenção em favor do Sul. Nessas reuniões intervinham muitos dos futuros líderes da Internacional. A presença do endinheirado jovem Henry Adams nessas reuniões seguramente se fez visível entre os trabalhadores que participavam delas. Além de recolher informações, a presença do filho do embaixador também pode ter o objetivo de fazer um chamamento direto à classe operária britânica, sem contar com seu governo.

Em dezembro de 1864, a Internacional propôs que uma delegação operária de 40 membros entregasse a carta e fosse recebida pela Embaixada. Embora o embaixador Adams tenha declinado da proposta, a carta da Internacional “Dirigida ao presidente Lincoln” foi entregue na Embaixada, e publicada em vários jornais ligados ao movimento operário britânico. Dizia em parte:

“Felicitamos ao povo americano por sua eleição por uma ampla maioria. Se a resistência ao poder escravista foi a principal consigna de sua primeira eleição, o triunfante grito de guerra de sua reeleição é: ¡morte à escravatura!”. (Esta carta, a resposta de Lincoln, e outros textos relacionados foram recolhidos em Robin Blackburn, Uma revolução inconclusa: Karl Marx e Abraham Lincoln, Londres: Verso, 2011). E continuava: “Desde o começo da titânica luta americana, os operários da Europa sentiram instintivamente que a bandeira das faixas e estrelas é portadora do destino de sua classe”.

Esta frase se referia não só aos profundos sentimentos antiescravistas das classes trabalhadoras britânicas da época, e as reuniões de massas que haviam organizado em apoio ao Norte, inclusive quando os principais políticos e publicações defendiam o apoio a uma intervenção britânica para romper o bloqueio de Lincoln aos portos do Sul, o algodão voltar a fluir através dos mares, pondo um fim ao desemprego em massa causado pelo bloqueio. A frase sobre o vínculo entre o destino dos EUA e o das classes trabalhadoras da Europa se baseava também em um fato indiscutível. A classe operária da Grã Bretanha (e mais ainda no Continente) não tinha direito de voto, que era censitário e limitado aos proprietários, e via nos EUA a única experiência importante de democracia política da época. O resultado foi um dos melhores exemplos jamais vistos de internacionalismo proletario.

Como Marx observou durante estas mobilizações dos trabalhadores britânicos no começo da guerra: “o verdadeiro povo da Inglaterra, França, Alemanha, da Europa, considera a causa dos Estados Unidos como sua própria causa, a causa da liberdade, e, apesar de todos os sofismas pagos, consideram a terra dos Estados Unidos como terra livre a disposição dos milhões de camponeses sem terra da Europa, sua terra prometida, que é preciso defender agora de espada na mão contra as sórdidas garras escravistas … Os povos da Europa sabem que a escravocracia do Sul começou a guerra com a declaração de que a continuidade da escravocracia já não era compatível com a continuidade da União. Portanto, os povos da Europa sabem que a luta pela sobrevivência da União é uma luta contra a continuação da escravidão – que nesse contexto, a mais alta forma de autogoverno popular conseguida até hoje está lutando contra a mais desprezível e mais desavergonhada forma de escravidão do homem nos anais da história (Marx, “El Times de Londres y lord Palmerston”, New York Tribune, 21 de outubro de 1861).

A carta de Marx a Lincoln em nome da Internacional também afirmava: “Enquanto os trabalhadores, o verdadeiro poder político do Norte, permitiram que a escravidão profanasse sua própria república, enquanto ante o negro dominado e vendido sem seu consentimento, presumiram que a maior prerrogativa do trabalhador de pele branca era vender-se e escolher seu próprio dono que la , não foram capazes de alcançar a verdadeira liberdade do trabalho, nem de apoiar a seus irmãos europeus em sua luta pela emancipação, mas esta barreira ao progresso foi varrida pelo mar vermelho da guerra civil “.

A resposta pública de Lincoln a Marx

Em 28 de janeiro de 1865, para surpresa e deleite de Marx e de outros membros da Internacional, a Embaixada dos EUA emitiu uma resposta pública do Embaixador Adams para a Internacional. Em uma carta a Engels, em 10 de fevereiro, um satisfeito Marx nota que Lincoln havia escolhido dirigir sua importante resposta não aos liberais britânicos que o adulavam, mas à classe operária e aos socialistas: “O fato de que Lincoln nos respondesse com tanta cortesia e que à “Sociedade pela Emancipação Burguesa” tenha feito de maneira brusca e puramente formal indignou ao The Daily News de tal maneira que não publicou a que nos havia… La diferença entre as resposta de Lincoln para nós e para a burguesia provocou tal sensação aqui que os “clubs” de West End movem incrédulos a cabeça. Pode compreender o gratificante que isso foi para nossa gente”.

Embora a resposta para a Internacional tenha sido assinada pelo embaixador Adams, deixou muito claro que Lincoln havia lido sua carta e que Adams falava no nome do presidente, e não no seu apenas.: “Fui instruído para informar-lhe que o Discurso inaugural do Conselho Central da Associação foi devidamente transmitido através desta Legação ao Presidente dos Estados Unidos, e este o recebeu”.

Tendo em cnta os acontecimentos de janeiro de 1865 narrados no filme, quando Lincoln estava em meio à coleta de votos para Decima Terceira Emenda, é ainda mais notável que tivesse tempo para redigir semelhante resposta. E por uma confluência estranha e comovedora de acontecimentos, a resposta de Lincoln para a Internacional fosse feita publica apenas três dias antes da superação, pela Cámara de Representantes dos EUA, dos obstáculos de numerosos políticos racistas e votasse, em 31 de janeiro, a ratificação da Emenda, e a enviasse aos Estados para sua ratificação final.

A resposta de Lincoln também se refere a nível geral aos “amigos da humanidade e ao progresso em todo o mundo” com quem os EUA contavam, uma alusão à forma pela qual as assembleias dos trabalhadores britânicos, que não tinham direito de voto devido aos requisitos de propriedade, haviam sido cruciais na hora de impedir as manobras britânicas para intervir a favor do Sul durante os primeiros anos da guerra. Esta sugestão é mais evidente na última frase, onde afirma que o governo dos EUA foi capaz de tirar “novos ânimos para perseverar graças ao testemunho dos operários da Europa, de que essa atitude nacional se viu favorecida com sua aprovação ilustrada e suas ardentes simpatias”.

É difícil recordar outro momento em que o governo dos EUA tenha agradecido publicamente à classe operária internacional seu apoio, e muito menos a uma organização de trabalhdores dirigida por socialistas.

As revoluções inconclusas: 1860 e 1960

Este intercâmbio entre Marx e Lincoln ilustra de forma dramática elo fato de que a Guerra Civil foi uma segunda revolução americana, muito mais radical que a primeira, em 1776. Foi sem dúvida uma revolução burguesa e não socialista, mas a defesa por sua ala esquerda – que acabou não tendo êxito – da necessidade de uma transformação fundamental na propriedade da terra, no Sul, apontava a algo ainda mais radical. Este caráter inconcluso da revolução, que se deteve na emancipação politica dos antigos escravos, e que logo, depois 1876, inclusive em grande parte ficou sem validez, é algo que ainda pesa sobre os Estados Unidos da América até nossos dias.

Em um inquietante paralelismo, a revolução pelos direitos civis nas décadas de 1950 e 1960, que finalmente conseguiram sobre una base mais permanente o que havia sido estabelecido muito brevemente através das leis e das emendas constitucionais nas décadas de 1860 e 1870, também se viu obrigada pelas circunstâncias a parar antes da emancipação política. Isso nos deixa hoje com o resultado paradóxico de que os EUA têm seu primeiro presidente afro-americano e, ao mesmo tempo, têm também mais homens e mulheres afroamericanos do que nunca em sua historia que se consomem quase esquecidos no mundo desumanizado das prisões e cárceres nos Estados Unidos.

O filme “Lincoln”, que também não trata destes temas, está em muitos aspectos também sem terminar. Inclusive em seus próprios termos, vendo a história a partir de um ângulo que destaca os acontecimentos protagonizados pela elite política em vez de pelas massas que as pressionavam, não leva até o final suas próprias implicações mais radicais, como por exemplo em seu retrato do programa republicano radical de Stevens. Mas é um sinal dos tempos, das transformações profundas da sociedade e da cultura dos EUA, que um filme comercial de Hollywood revele inclusive uma parte desta página da história revolucionária, que, como assinalou Marx, teve efeitos “em todo o mundo”.

(*) Professor de sociologia e ciências políticas na Universidade da Califórnia, e autor de Marx at the Margins: On Nationalism, Ethnicity, and Non-Western Societies (University of Chicago Press, 2010). Tradução: José Carlos Ruy

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